UM RETRATO


Florbela era filha de um fotógrafo, por isso é tão rica a sua iconografia. João Espanca, seu pai, fazia de Florbela a musa preferida. Ela adorava as poses: pérolas falsas enfeitando o pescoço, estola de pele de raposa sobre os ombros, semblante grave à Pola Negri, quase sempre não sorria, olhar vago, de um verde-água traído pelo preto e branco dos retratos da época.

Depois do pai, tantos outros, a modos diversificados, pintaram um retrato da poetisa. Não faltou quem acentuasse um defeito ou uma qualidade, até criaram novos matizes para enfeitar a imagem que queriam destacar. Amada e temida como as sereias, seu canto poético seduziu e irou um pequeno país, espremido entre o mar e a montanha, no início do século XX.

Às vésperas do centenário do seu primeiro livro de poemas, o Livro de Mágoas, de 1919, qual retrato pode-se apreender hoje de Florbela?

A dimensão artística da palavra lhe deu o condão de resistir à voragem do tempo e este, senhor de todas as respostas, apagou tantos traços irresponsavelmente sobrepostos ao retrato da escritora.

Dessa maneira, não é mais possível (nem salutar) a constituição de perfis apenas díspares, pois com o passar dos anos, como um vinho que ganha sabores e aromas complexos, depreenderam-se da obra e da vida de Florbela diversas maneiras de apreensão: de uma fatura literária relativamente curta e de uma vida (abreviada de maneira precoce, infelizmente!) imbrincada nas palavras que escreveu sobressaíram perspectivas variadas e ricas, como a questão da emancipação feminina, das engrenagens de uma escrita calcada em si, do trabalho voltado à tradução literária, do diálogo e ruptura com a Tradição, de um erotismo pulsante e uma dor plangente, da irmanação geográfica com a terra natal, bem como certo atavismo cultural de uma saudade eminentemente lusitana... tudo isso amalgamado num conjunto literário que rendeu à Literatura Portuguesa um acervo dos mais belos versos já escritos nas Terras d’Além Mar.

Portanto, essa multiplicidade caleidoscópica está retratada nos ensaios colecionados neste número da Revista 7faces em homenagem à Florbela Espanca. Agradeço a Pedro Fernandes a oportunidade de se construir, em momento extremamente oportuno, um belo, justo e variado retrato da poetisa, na observação crítica da riqueza da sua obra e na contemplação da beleza da sua escrita. Viva Florbela!

Jonas Leite
Coorganizador

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7faces. Ano IX, 17 edição, jan.-jul. 2018


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Organização
Jonas Leite
Cesar Kiraly
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas
246

Formato
edição eletrônica

Autores desta edição
Franco Bordino (poemas traduzidos por Pedro Fernandes de Oliveira Neto),  Daniel Jonas (seleção de poemas da antologia Os fantasmas inquilinos organizada por Mariano Marovatto, Editora Todavia), Lucas Grosso, Augusto de Sousa, Juan Manuel Palomino Domínguez, Carolina Pazos, Tibério Júlio de Albuquerque Bastos, Rebeca Rose dos Santos Leandro, Nathalia Catarina, Alaor Rocha, Paulo Emílio Azevedo e Moira Marques Portugal.


Autores convidados
Eliana Luiza dos Santos Barros, Isa Margarida Vitória Severino, Michelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento, Maria Lúcia Dal Farra, Clêuma de Carvalho Magalhães, Fabio Mario da Silva, Andreia de Lima Andrade, Chris Gerry, Iracema Goor Xavier

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NOTA QUASE INÚTIL




Escrever sobre Herberto Helder é um crime. Ler também, não nos enganemos. Qualquer desaviso em relação ao poeta é um convite ao conhecimento de si e do mundo pelas vias obscuras, pela mão errada de um criminoso com sua única graça, o crime, empunhando a Bic preta — a mais inocente das armas. Imperdoáveis, o amor e a palavra são as condições para abrir o caso.

Em julho de 2018 poderia ser comemorado o lançamento de Apresentação do Rosto (Ulisseia, 1968), um dos livros mais polêmicos de Herberto Helder e que já quase não existe à mão. O condicional é aplicado não fosse o livro um advento tumultuoso na trajetória literária de um dos maiores escritores portugueses do nosso tempo: o romance autobiográfico ou a autobiografia romanceada foi alvo de censura pela Polícia Política dias após a impressão de seus 1.500 exemplares. Quase todo o material foi incinerado assim que apreendido pelo P.I.D.E. A pequena parcela que escapou à destruição se encontra em alguns pontos específicos do mundo, seja em bibliotecas de universidades, entre as raridades de alfarrabistas exigentes ou então nos cofres de seletos estudiosos de Herberto Helder. Cinquenta anos de um livro renegado pelo próprio Autor — aqui em maiúscula — é lembrado por ser o reduto primeiro de diversos textos remanejados ou reescritos para outros títulos como Photomaton & Vox, Vocação Animal e Os Passos em Volta. O que foi o foram os relances potencialmente ligados ao seu passado propriamente civil, como se fosse a página o confessionário, a casa da infância que deveria ficar em total escuridão. 

Abrir esta 7faces lembrando de uma das mais indefiníveis publicações da literatura portuguesa, assinadas por um poeta como Herberto Helder, é tão arriscado quanto cometer a montagem de uma edição especial sobre Herberto Helder. Deve-se responder pela tentativa de reunir alguns dos principais nomes que falam sobre esse nome, como se um crime estivesse sendo premeditado.

Assim como a poesia é esse ato ilícito para atingir o coração da existência, uma revista é a prova de que não se ocultam esforços para convidar à roda os passos de novos e mais leitores. É uma tentativa. Os poetas e seus respectivos crimes, cuidadosamente escolhidos, também se voltam ao Autor — sempre em maiúscula — e, de uma forma ou de outra, também homenageiam o rosto e testemunham o seu processo de ocultação na própria obra. É no poema que o poeta respira. É na poesia que o poeta morre, e é assim que se vive para sempre. 

Escrever sobre Herberto Helder é um crime e toda a sua dificuldade. Inafiançável, como a sua escrita. E essa a condição de sua grandeza. Porque o êxito da poesia está, como o próprio Helder afirma diante dos poemas de António José Forte, “em torná-la activa e frutuosamente manifesta”. Lida e relida, com cuidado ou à exaustão, é a prova de que a vida de um poeta compensa. E também a morte, sem mestre.

Agradeço, e não pouco, pela confiança do editor Pedro Fernandes e pela pronta resposta dos convidados para participar de um documento voltado às mais variadas faces da obra de Herberto Helder, seja no ensaio, nos versos ou mesmo nas artes visuais. Para construir mais um ponto de leitura do silêncio — mais um lugar de paixão. 

Enquanto isso, Herberto Helder segue sendo o crime que não prescreve. 


Leonardo Chioda
Coorganizador

Veneza, maio de 2018


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7faces. Ano VIII, 16 edição, ago.-dez. 2017



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Organização
Leonardo Chioda
Cesar Kiraly
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas
256

Formato
edição eletrônica

Autores desta edição
Mariana Basílio, Eduardo Quina, Hugo Lima, Valter Hugo Mãe (seleção de textos do seu inédito no Brasil publicação da mortalidade), Camila Assad Quintanilha, Gabriel Faraco, Laura Elizia Haubert, Carlos Arthur Rezende Pereira, Cristiane Bouger, Jorge de Freitas, Diogo Bogéa, José Pascoal, Lucas Perito, Antônio LaCarne, Gabriel Stroka Ceballos, Diego Ortega dos Santos, Gregório Camilo, Guilherme Lessa Bica, José Huguenin e Fabrício Gean Guedes.

Autores convidados
Eduardo Quina, António Fournier, Rafael Lovisi Prado, Maria Lúcia Dal Farra, Claudio Willer,  Tatiana Picosque e Ana Cristina Joaquim.

Ilustrações 
Mariana Viana

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DA MANEIRA MAIS SIMPLES, OUTROS RITMOS, OUTROS MODOS


Tomar as coisas simples, sem retirá-las de seu estado de simplicidade; torná-las nas mais complexas, sem torná-las incompreensíveis. Duas tarefas da boa poesia. Mede-se a capacidade do poeta pela maneira como torna o significado em significante. O tecido do poema deve ser feito com riqueza de densidade, ao ponto de servir a forças externas variadas. Quanto maior sua elasticidade maior a durabilidade do poema. E, claro, se o literário se mede pela longevidade, mais próximo de ser voz singular entre vozes singulares. O poema é um objeto fabricado para mover-se. Quando não, está fadado à ferrugem indelével do tempo.

Reparar a complexidade do simples não é às vezes o mais difícil dos exercícios e por isso tanta matéria se acumula no porão do esquecimento. O que envolve esse procedimento é que a poesia se faz da mais autêntica das características da literatura. Todo poema é revelação. Há nesta palavra duas condições dicotômicas, compreendendo por isso não o viés comum – e, um dia, perceberão, deturpado – de distinção opositiva. O dicotômico se constitui na inter-relação entre duas faces de um mesmo objeto. Ou seja, o que aqui se nega não é sua distinção e sim a determinação da incomunicabilidade entre uma e outra face como se se tratasse de unidades isoladas e incomuns.

Assim, em revelação, do latim revelatio, se conjugam dois termos, re, indicando oposição, e, velare, cobrir, tapar; velare, de velum, véu. Velar, logo, cobrir com véu, esconder; e revelar, retirar o véu, mostrar. Os dois sentidos se ocultam na palavra revelação. O ato de se mostrar não traz nunca uma imagem pura do que se mostra. Assim, o que se vê na revelação é apenas o entrevisto; o que num primeiro instante constitui uma certeza sobre o que se mostra, mas logo é tornada em dúvida. Toda revelação pressupõe um ocultamento. Daí o descompromisso do literário com esse ideal fabulado pela razão sobre uma verdade absoluta das coisas. Não há discurso fora da ideologia. E toda literatura é também, para contrapor outra das ilusões que foram buscadas para validar o valor prático do exercício estético com a linguagem, ideológica.

Em matéria de poesia, revelação preenche, dentre as várias linhas de sentido acumuladas pelos usos do termo e aqui retomada para o melhor esclarecimento das conjeturas etimológicas apresentadas, aquele viés de raiz teológica. Revelar é fazer conhecer o que se oculta dos olhos comuns. Novamente, não repousa a ideia de abertura permanente do que se encobre, em que seja possível nele permanecer. O que se mostra se mostra através de um lampejo, uma iluminação capaz de favorecer os sentidos a reparar sobre a face que se oculta. Nenhum profeta – e ao que parece nem mesmo Adão e Eva – viram a face de Deus. Todas suas aparições se resumem a sinais: um sopro que repousa no vazio absoluto, uma voz ou uma chama que se desprende do céu ou do nada.

Todo poema, porque criação, imita a Deus; não há heresia na afirmação uma vez que não se permite sobre ela uma simplista conotação religiosa. Sagrada, sim; religiosa não. O poema é material de manifestação do sagrado, em todas as suas dimensões, porque objeto dourado e batido na forja por um ente capaz de perceber Deus nos seus sinais. Na ruptura com as linhas determinantes que julga uns em detrimento de outros, o sagrado da poesia pressupõe a face oculta pelo dogma; a poesia contém, no sentido de contemplar, o que se designa profano. É nele onde reside a força sacra mais honesta. O homem é corpo, pulsão e desejo – as três dimensões que o tornam herdade de um milagre.

Dentro desta linha, a poética de Eugénio de Andrade é significativa; nela se inaugura, algo comum a toda obra significativa do gênero, um universo particular cujo interesse é favorecer uma revelação do mundo, desde sua forma mais simples à mais complexa, aquela capaz de não ser justificada pela mera força antagônica com que fomos levados a forjar o mundo. Embora pareça que cada poema seu é gerado de eventos individuais que subitamente tornam à vista do poeta – e são – essas peças constituem um todo vibrátil; é um corpo que se mostra em variações, ora ele próprio, ora – e em grande parte – metamorfoseado em ilações favoráveis ao encontro de uma dimensão que julgávamos perdida, mas que ao tato do poeta foi apenas propositalmente velada pelos estratagemas da técnica, persistentes estes na negação da poesia enquanto mobilis de todas as coisas.

Essa dimensão recorre a um tempo primitivo quando todas as coisas, apesar de conter sua forma-em-si, não eram colocadas umas em oposições a outras. Tanto que na poesia de Eugénio de Andrade seu gesto sagrado é o da comunhão corpo-mundo-corpo; mantém-se um reino da inseparabilidade opositiva. Esta só se mostra em aparência porque objeto feito de palavras, não-possibilidade de realização plena dessa totalidade. Nessa composição, o poema é sutura de elementos que figuram ao alcance do poeta; esses elementos por vezes se revelam como são, outras, logo transmutados numa forma que mantém estreiteza nas suas nervuras constitutivas.

Nada, entretanto, é inocente nesta poesia e por isso que os inocentes, no trabalho e retrabalho das sugestões comuns para o que nela acreditam se revelar, sempre estarão condenados a apenas planar sobre a superfície do poema. Quantas imagens marcadas pela ordem opositiva das coisas ilustram a poesia de Eugénio de Andrade? Nenhuma. Mas os olhos que não desconfiam do que veem ou que apenas não estão de espírito livre para acessar as imagens outras que esta poesia nos sugere permanecem nos modelos triviais. Nada mal para o poeta. Ele conseguiu realizar-se em sua plenitude. Se recordamos o que dizíamos sobre o termo revelação entenderemos.

É preciso o olho de soslaio, incomum, o corpo febril e sedento, o espírito livre dos dogmas para se aperceber do que se nos mostra no poema. Todo poema só se realiza se formos capazes da construção de um olhar desautomatizado da repetição simplista da técnica e capaz de nos restaurar o contato aberto com o mundo e as coisas, como se pudéssemos cumprir um retorno ao nosso tempo primitivo. Caso contrário, o que teremos é apenas uma acumulação de palavras dispostas em relação ou não entre si. Ou seja, o simples não é o que aparenta. Nem a poesia do simples.

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7faces. Ano VIII, 15 edição, jan.-jul. 2017



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Organização
Cesar Kiraly
Pedro Belo Clara
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas
268

Formato
edição eletrônica

Autores desta edição
Carla Valente, Clara Baccarin, Custódia Pereira, Helena Loza, Joaquim Cardoso Dias, Laryssa Costa, Lucas Repetto, Manuel Pintor, Sandra Fonseca Matias, Susana Canais, Alberto Arecchi, Carla Carbatti, Marcelo Grisa, Maria Vaz e Pablo Bruno de Paula dos Santos.

Autores convidados
Gabriel José Innocentini Hayashi, Paulo Brás, Maria Vaz, Maria João Reynaud, Paula Mendonça e Tânia Ardito.

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“A POESIA QUE RESIDE NAS COISAS”


Há muito,
os objetos criaram
Um som macio de existência,
E a vida mudou-se sujocada
Para a face inerte, das coisas.
O mundo vestiu a capa grosseira
dos jatos cotidianos e chamou para a sombra,
tudo o que pudesse perturbar na luz,
a vista enfraquecida nas longas meditações.
Por isso, ninguém viu nada....

Mário Peixoto, trecho de “A poesia reside nas coisas”. Poemas de permeio com o mar


Podemos pensar que este trecho de poesia resumiria todo sentido do imenso reservatório poético e imagético de Mario Peixoto. O centro de tudo isso se encontraria na autoconsciência, desde a juventude, de um mundo originário ligado a um corpo-vibrátil sem órgãos e desterritorializado da infância. Este que incluiria um pensamento reflexo capaz de captar e expressar no intervalo de um instante sublime, uma infinita riqueza de energia na singularidade de texturas e cores das coisas ao redor em oposição àquele perceptivo funcional e inerte do cotidiano e das identidades subjacentes. Essa consciência de um corpo vibrátil se espalharia então por todos os meios expressivos que Mário utilizou, do cinema à literatura. Se há uma poesia da existência, do familiar ou do inefável do limite humano, ela se encontraria precisamente na dimensão tanto do absoluto da natureza em relação ao homem como na dimensão do corpo e das coisas imediatamente postas ao redor e que são necessariamente percebidas pelo olhar. Olhos e imaginação trabalhando sempre juntos segundo o próprio Mário, influenciado por um cinema mudo contaminado pelas vanguardas e pelo engajamento vinculado a um amplo contexto ideológico estetizante da arte moderna, que substituiu a tradição clássica e as convenções por uma nova ordem do mundo vinculada ao visível, na autonomia das descobertas da experimentação do olhar sobre as texturas na luz, como disse Louis Delluc, A poesia é portanto verdadeira e existe tão realmente quanto o olho. Mas Mário radicaliza essa experimentação estética em Limite no andamento fluido de sua “atenção” sobre as mãos iniciais, na textura do rosto da mulher do prólogo, do barco e do remo pictóricos na imagem, dos cabelos da mulher ou dos homens no cemitério, na textura sombreada do barco, nas guelras se entreabrindo do peixe na praia e nos movimentos livres da câmera no telhado, na estrada ou no bebedouro, nos movimentos da máquina de costura e no trem, desobstruindo-os do apenas simbólico ou de sua funcionalidade no encadeamento da narrativa fílmica para simplesmente acontecer poeticamente na imagem e no som entrelaçados, valendo-se principalmente de sua opacidade de coisa. Portanto será das coisas que nascerá uma poética do sublime, portanto moderna. E é dessa poética das coisas na imagem que nascerá uma narrativa sonora de imagens fluida e indeterminada. Essa poética se tornará um espelho fenomenológico dessa poesia que reside nas coisas na medida em que o próprio desencadear da narrativa geraria no fim de Limite uma poética do entrelaçamento na cena das mãos do homem morto formando, segundo o próprio Mário, uma contextura com o chão. O corpo como coisa entre as coisas. O entrelaçamento. A carne. O quiasma. Anos depois, já no início da grande literatura de O inútil de cada um, apareceria um pensamento amadurecido explicitando a poética de uma busca pelo sublime no ato reflexo do pensamento sobre si perceptivo e da suspensão do agora eternizado pela consciência do instante que recai sobre a percepção do tempo e das coisas ao redor espalhadas no chão e descritas no passeio na praia, extensão poética das pegadas do casal em Limite. O corpo será, então, o grande operador dessa poética. Poética de um pensamento espelhado que recai sobre si mesmo, sobre esse mesmo estar no mundo corpóreo e sua relação silenciosa com as coisas que tecem um universo de existência algo lisérgico nas texturas moventes ao som das trilhas de Debussy, Satie e Ravel e que de alguma forma prenunciariam algo como uma ponte longínqua do que viria a ser conhecida muito tempo depois como a nova dicção da valorização do corpo na contracultura, no comportamento hippie, expressa na literatura pop tropicalista em José Agrippino de Paula, nas artes plásticas, operada pelo ideologema fenomenológico do neoconcretismo, na performance e no cinema experimental dos anos 1970, principalmente no superoitismo de Céu sobre água, do mesmo Agrippino. Poderíamos então, quem sabe, pensar na constituição de um determinado veio estético brasileiro imbuído de um sensível corpóreo e que a partir desses regimes poéticos e de imagens diferenciados pudessem ser pensados a partir de um hipotético entrecruzamento no espaço e no tempo.

Geraldo Blay Roizman


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Mário Peixoto. Poemas, prosas e material de espólio (encartado no n.14 da Revista 7faces)


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Gênero
Poesia; prosa

Capa
Pedro Fernandes a partir de foto Mário Peixoto.

Páginas
130

Sobre
Este encarte reúne uma seleção de poemas, excertos em prosa e reproduz materiais do Arquivo Mário Peixoto. 

7faces. Ano VII, 14 edição, ago.-dez. 2016


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Organização
Cesar Kiraly
Filippi Fernandes
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Capa
Victoria Topping

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas
252

Formato
edição eletrônica

Autores desta edição
José Luís Peixoto, Jonas Leite, Chary Gumeta (poeta mexicana traduzida por Pedro Fernandes), Rodrigo Novaes de Almeida, Lucas Rolim, Gabriel Abilio de Lima Oliveira, Carlos Augusto Pereira, Geovane Otavio Ursulino, Rosa Piccolo, Izabela Sanchez, Orlando Jorge Figueiredo, Diego Ortega dos Santos, Lucas Facó e Felipe Simas

Autores convidados
Geraldo Blay Roizman, Ciro Inácio Marcondes, Saulo Pereira de Mello, Roberta Gnattali, Joel Pizzini

Encarte
Encartado a esta edição foi publicado Mário Peixoto. Poemas, prosas e material de espólio (aqui)


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SOBREVIDA PELA PALAVRA

A vida são instantes. E os instantes são vãos. Só a palavra é sobrevida. Mesmo se esquecida, fatalidade da qual talvez o único ileso seja o tempo; silenciada, destino dado àqueles para quem a palavra é mero exercício pragmático ou quem é calado pelo poder.

A palavra é ainda nossa única eternidade. Foi, na impossibilidade de precisar o eterno, a cápsula que trouxe vivos quem nunca conhecemos. E revelará para o futuro quem fomos. A eternidade é um reverberar contínuo de palavras. Não à toa, a palavra foi tornada objeto de culto. Quem é deus, se não uma palavra? E a existência, se não o que se nomeia? A palavra é o princípio, o meio e o fim.

A compreensão da palavra como criadora do visível, finito, e do invisível, infinito, é a raiz da poesia. Há no poeta a contínua tarefa de refundação do mundo. Ora pela distensão da palavra em uso, ora pela renovação da língua pela palavra nova. No primeiro caso é, mesmo que recriação, criação, uma vez não ser o ato recriativo uma ressurreição. A ressurreição não é o nascimento do mesmo. Tudo só vive uma vez. Exceto a palavra, que se renasce e alcança os opostos noutras vidas.

Assim, quando acusam o poeta de sua poesia se refugiar no trivial é, por vezes, contra a possibilidade criativa – e o logo o ser da poesia – que se colocam. Porque não é a trivialidade aquilo que permanece no poema mas sua expansão. O que se expressa. E isso precisou que o poeta alcançasse outra compreensão sobre a efemeridade a fim de percebê-la como possibilidade poética. Ao mesmo tempo, esta não é uma percepção fortuita. Nem totalmente nova – coisa do acaso. Nem gratuita, levada em causa pelo império do trivial e do efêmero, expandido da aurora da modernidade ao contemporâneo. É a reafirmação do que sempre se percebeu enquanto força, pulso da natureza. Que o material da poesia é a existência. Se assim, a poesia está em toda parte. E o poeta é o demiurgo. 

Por exemplo, o ponto no qual se insere Ana Cristina Cesar, o dos poetas que lidam com o uso coloquial da linguagem e se apropriam na sua obra de palavras corriqueiras, dos seus usos pragmáticos, do seu cotidiano – afirmativa que, se se adéqua ao estatuto do efêmero aqui em destaque, se distancia o suficiente, no limite de ser chamado de contradição, se lembrarmos que esses poemas podem, agora distantes desses usos e do cotidiano da linguagem, constituir o sentido sempiterno esperado da poesia. Historicamente é inegável o distanciamento do presente tomado como feitura do poema. Mas, o caso percebido então, é que, tomado pelo poema, qualquer efemeridade é logo tornada distância. 

O trabalho de preocupação pela desvinculação do datado – daquilo que o próprio Carlos Drummond de Andrade, um dos nomes pertencentes daquele eixo central do modernismo e situado entre os revolucionários do gesto poético na literatura brasileira, isto é, base para o que tem sido trabalhado pelos poetas de depois – não é uma tarefa atribuída ao leitor mas ao poeta; convencionalmente, são raros os leitores presos à necessidade de vincular o conteúdo do poema a determinado contexto. E essa proximidade é só ilusão para o poeta. Para o leitor, pura miragem. Aos leitores mais acurados nunca lhe restará outra alternativa se não a de, no trato de deslindamento do poema, oferecer a mais diversa sorte de possibilidades de leitura a fim de demonstrar o trabalho de significação construído, direta ou indiretamente, pelo poeta. Isso significa dizer que, a depender da maneira como se verifica o contexto pela obra poética, retomá-lo não é atribuir-lhe uma força atrasada e sem valia para o leitor contemporâneo, tampouco atualizá-la, mas tratá-la como um enriquecimento no processo de leitura do poema. O poema é rio de linguagem e arrasta sedimentos do tempo. Em passagem, esses sedimentos são o mesmo-outros. Ler poesia vestida de efemeridades é encontrar a pele deixada pela palavra no passado e como se recria depois. Um mover-se sempre em distensão.

A efemeridade que une Ana C. aos poetas de seu tempo e depois dele assume-se como uma frente de significação diversa: se manifesta ora na estrutura e forma do poema, quando encontramos a força epifânica do verso curto, a estrofe breve ou poema-pílula e a linguagem quase sempre despida do trabalho de garimpo, a anotação do que lhe vem num instante de epifania; ora no tema, nas situações evocadas que se referem ao dia comum, do que vê e vivencia o eu-poeta; ou na maneira como o poema é apreciado pelo leitor. Isto é, não estamos ante qualquer força que lhe implique uma necessária reflexão porque o efêmero, o epifânico, é revelação e não inspiração. O poema é instante.

É por isso que o renascimento, por assim dizer, da sua obra encontra terreno muito fértil na atualidade. Porque, do tempo dela para o nosso, o efêmero é cada vez um modus vivendi; já não é a da atitude de reflexão contemplativa. Estamos definitivamente na era dos insight – naquilo que, se para o bem ou para mal ainda não sabemos, tem se assumido na poesia com grande força expressiva, ainda que o poema-trocadilho e o poema-piada, por exemplo, signos da aurora desse tempo, sejam uma alternativa cada vez mais previsível e logo um fenômeno cansado, que serviu a um tempo mas agora talvez devêssemos usar essa força para galgar outras expressões poéticas; de toda maneira, as novas gerações têm em poéticas como a de Ana o impulso para se reinventarem. Herdeiros na poesia são aqueles capazes de subverter o que seus antepassados disseram e fizeram. O trabalho de poetas como Ana C. foi sempre o de desconstruir descontraidamente a sisudez da poesia e de quem faz o verso.

Isso responde perfeitamente as acusações de que a poesia de poetas como Ana Cristina sobrevivem mais ao culto do poeta torturado, atormentado e suicida. A poesia dessa poeta encontra fôlego dentro e fora de seu tempo. É catapulta para o futuro. Prevalece a sobrevida da palavra que, por sua vez, é a sobrevida do poeta. Não o contrário como os detratores costumam pensar.


Pedro Fernandes
editor

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7faces. Ano VII, 13 edição, jan.-jul. 2016

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Organização
Pedro Fernandes de Oliveira Neto
Cesar Kiraly

Capa
Billy and Hells

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas
248

Formato
edição eletrônica

Autores desta edição
Lau Siqueira, Jørge Pereira, Fernanda Fatureto, Douglas Siqueira, Laís Araruna de Aquino, Anna Barton, Salvador Scarpelli, Leandro Rodrigues, Lúcio Carvalho, Karin Krogh, Jeovane de Oliveira Cazer, Cristiane Grando, João Pedro S. Liossi, Luís Otávio Hott, Ricardo Abdala, Nivaldete Ferreira, Carlos Barata, Laís Ferreira Oliveira e Fernanda Pacheco.

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“O poeta inventa viagem, retorno, e sofre de saudade”
Hilda Hilst

Entre os nomes ousaram intervir com os chamados temas pouco poéticos – e por isso as observações desenvolvidas até aqui – está o de Hilda Hilst; talvez por essa razão e porque não se interessou pactuar com determinados grupos do Olimpo (leiam a expressão com a máxima de ironia possível), a poeta também está no rol daqueles cuja obra melhor ficaria se caída no esquecimento. Contra essa última imposição podemos pensar na saída construída por ela: passar-se pelo que não era (ou será que era?) a fim de enquanto se desfazia da voz comum que rebaixava seu trabalho se mostrava igualmente como as outras já ingressadas por toda sorte de subterfúgios ao panteão dos sacrossantos. Essa posição é arriscada e não serve aos fracos, aos que se encantam pelo bruxulear da fama do bem-aceito e esquecem do lugar devido do poeta – o não-lugar. Hilda fez-se em trânsito e construiu aberturas para ruir com o interesse escuso da crítica conveniente e conivente que zelou por jogá-la no limbo.

O poeta é e não é homem do seu tempo. Sabe de quais materiais molda seu universo. É porque não é possível se desfazer das obsessões que lhe tomam no momento de composição; não é porque, mesmo expondo às claras os motivos do seu tempo, estes não são sorvidos à sua maneira pelos leitores imediatos. Isso justifica a perenidade de determinadas obras; justifica o caso de redescoberta da poesia de Hilda Hilst. É o processo de contínua leitura motivado em parte pela exposição escusa da crítica de seu tempo quando não o silêncio em torno da sua obra – silêncio lido pela poeta como o pior dos castigos da musa contra o trabalho do poeta, silêncio que sempre foi preenchido pelas banalidades produzidas por outros poetas – que faz finalmente sua obra alçar outra dimensão da sua obra na e para a literatura recente.

Não se trata isso de reconciliação do centro com os das margens – porque além dessas duas dimensões possuir suas limitações, sobretudo a segunda, a releitura de uma obra nem sempre é feita com o interesse de corrigir a visão deturpada de um tempo. É porque finalmente é feita uma leitura coerente e não sentencial de sua obra. Nesse momento parece que sempre ouviremos ela nos dizer, “fico besta quando me entendem”. E, afinal, pode nem ser entendimento somente; é que obedecendo certa posição repetível entre os grandes, Hilda esteve em contato com as vozes de um tempo porvir, ainda que este tempo de hoje ora pareça tão mais retrógrado, corrompido, coberto por uma espessa camada de fumo com elementos do pior da civilização. E esta não é uma posição pessimista; é somente uma constatação do próprio malgrado humano lido pela poeta em “Poemas aos homens de nosso tempo”.

Da extensa e multifacetada obra de Hilda Hilst, a poesia, tal como sua prosa, esteve interessada em expor, dentre outras questões ou temas, os conflitos centrais entre sujeito mundo e os discursos sempre apresentados como acabados ou não-sensíveis ao campo do poeta; tal posição está em consonância com o que se esperava da obra de um poeta do seu tempo, mas, tudo se filia a uma condição marcadamente única só possível de ser realizada através de uma escrita interessada no trabalho não de permanência mas de desestabilização das trivialidades. Devemos a Hilda sua perspicácia e inteligência em afastar-se da mesmidade dos temas no interesse de uma obra autossuficiente; que fez da contradição e dos rigores estabelecidos dos discursos matéria vital para sua poesia – coragem dispensada em muitos poetas e utilizada com o vigor necessário na construção de uma obra desde sempre igualmente necessária.

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"Quando já abandonamos a crença em um Deus, a poesia é a essência que ocupa seu lugar como redenção da vida"
Wallace Stevens


Muito já se escreveu sobre o caráter valorativo da poesia. Sobre o seu papel nesse mundo tresloucado. Mas, todos parecem concordar, entretanto, que esse valor e esse papel da poesia não são instituídos por padrões fixos e são, portanto, imensuráveis e reduzidos a si próprios. A questão não se finda aí, no entanto. E por isso entro para o rol dos que voltam a ela só para, mais uma vez, dizer que esse fim em si da poesia está para além do seu próprio estatuto. E que esse fim desempenha um movimento para além das fronteiras do signo poético e sua dimensão é ampla o suficiente para entender a poesia com materialidade constituinte da ordem real do mundo empírico; muito embora o mundo empírico a rejeite, a poesia faz-se força corrente, escorrega sorrateira por entre suas fendas e aí se instala sendo capaz de reinventar a ordem das coisas. E isso não tem nada a ver com uma pedagogização gratuita do mundo, um amolecimento da dureza da racionalidade ou como quer ainda os mais puritanos, um florear do real. Sobre isso já tenho dito que estamos longe no território da poesia. Ela tornou-se materialidade inquieta e inquieta o suficiente para ser aquela que aponta com o mesmo dedo em riste do romance, por exemplo, o caos do mundo.

Sobre o caos do mundo a poesia ocupa a dimensão não de estatuinte de uma ordem, mas de sua problematização. Se antes o mundo parecia um sistema muito bem elaborado, com proa conduzida pela figura de um navegante superior que detinha as coordenadas e dizia – sem dar as caras – qual seu papel na cabine da condução; se antes o sistema bem elaborado se guiava por regras próprias às quais o homem, reles mortal, não tinha acesso; hoje o movimento é avesso disso tudo: olhamos para os mais de não-sei-quantos anos-luz desse mar de estrelas e percebemo-nos sem capitão; o sistema, até que possui regras próprias e está mais ou menos bem estruturado, mas noutra ponta, a certeza de não termos capitão e de sermos agora criador-e-criatura, deu ao mundo uma destituição de sua cartografia e ao homem a vontade real de ser imortal. A poesia entra aí como unidade maleável no processo de reconhecimento do mundo-em-si, do homem-pelo-homem, do homem-deus. Isso parece ser suficiente para ver na poesia como espaço de redenção do homem perante sua existência e, consequentemente, da vida perante a vida. Nesse processo, instaura-se ainda o caráter de resistência da poesia.

O sopro da nomeação – instituído na criação do mundo ao Adão – é um sopro poético. Reconhecer a natureza com tudo o que ela tem, fundamento da linguagem, instituição do mundo, por extensão fundamento da poesia. Se ela se desvinculou do movimento sagrado e desceu das torres de marfim, porque os deuses todos estão mortos, a poesia, logo, ocupa o extenso vazio por eles deixado e firma-se como sentido das coisas e do mundo. Não deixa de ser posta sob pelos-ares como representação vazia ou inutilidade verbal, isso pelo modo como o rumo da construção do sistema que rege a redoma social tem sido pensado, articulado e construído, ao longo de vários séculos de dominação e exploração. Contemporaneamente, a espetacularização, o consumismo, a massificação, a coisificação do homem, a nulidade da vida e o desenvolvimento de uma teia crescente que suga e deglute a todos e nos ameaça (e muito tem nos transformado) em escravos cativos, mentes obsedadas, esquemas a serviço de, eis que a poesia resiste. Resiste no ato de reincorporação do corpora semântico, de refacção dos esquemas verbivocovisuais, da reformulação de sua própria consciência de ser-poético e firma-se como contra-corrente para destituir a hostilidade, o absurdo, a falta de lucidez. Firma-se como um grito, um perfil esguio, esquivo, revolto, retorcido, alimentando-se não somente de si – sua substância vital – mas deglutindo, antropofagicamente, a indigência, o avesso, o retrocesso. Fecha-se para si, fala de si-para-si, mas expõe a nu os movimentos de obliteração que a reduziram em fantasmagoria. Mas sobrevive. E sobrevive.

Aqui se inscreve a poesia de Marize Castro. Não quero reduzi-la ao tom feminino a que a crítica comumente tem-na associado e o fundo sobre o qual a poeta tem se movido ostensivamente. Mas quero entender Marize Castro no epicentro de um movimento escritural que se firma como sujeito-ator no processo de reconstituição simbólica do mundo pela palavra – signo feminino, mas largamente cultivado por uma colônia patriarcal. A poeta de Marrons crepons marfins estabelece – ao modo do que fizeram outras poetas suas contemporâneas e ao modo como fazem também outras poetas posteriores a si – um novo movimento do signo poético, que primeiro busca no traço da diferença, mas não deixando de guiar-se por projetos mais solidificados, para uma refiguração do mundo. Um elo de resistência às paredes da ordem dominante, a fim de, como um caruncho que se alimenta dessa estrutura, promover uma destituição do dito pelo interdito.

O ilhamento da palavra, sua decomposição e recomposição em pequenos blocos, entre outras figurações estéticas constituem-se, ainda, em novidade pelo modo como o recurso, aperfeiçoado desde a lírica cabralina, dá enforme a ideia verbal sugerida pela poeta. A resistência da poesia encontra em Marize muitas faces. Muito embora estejamos diante de uma urdidura poética ainda em construção, o fabricar seu ora sugere a reformulação de condutas, ora sugere um mover-se de defesa e destituição discursiva, ora é crítica sem trégua ao descompasso, à desordem do mundo-fêmea em constante reformação. Não há espaço para nostalgia, nem para a utopia, o fim-em-si do poema propõe um mundo outro, de fendas expostas, de novas relações, em que a poeta se apresenta numa pulsação corpórea de dimensões escusas, pondo à voz o que foi silenciado, cerceado, cerzido, obliterado por uma ordem unicista, unilateralista e inteiramente a serviço de uma margem tida como superior às outras. 

Pedro Fernandes
editor 


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"um bom poema, / por mais belo que seja, tem de ser cruel" 
Joan Margarit 

Lapidar palavras. Não é esse apenas o trabalho do poeta. É lapidá-las e recolocá-las em rotação. Porque palavras são, além de pedras, universos. Por isso mesmo, o ofício do poeta está para o de deus. Cada poema engendra na sua maquinaria um universo próprio e particular. Universo que se nutre da lama de onde emerge, mas customiza-se, vinga (não todos) e constitui-se em atmosfera paralela a esse real empírico que habitamos. Nesse estágio, o poema atua como sala de espelhos. Mas dela extrai-se um itinerário palpável que não se perde no espaldar dos reflexos. É esse itinerário o resultado de sua materialidade pétrea. As palavras têm dimensão, peso, massa e volume. Não tivesse não seria possível moldar esse universo particular do poema, como também se perderia o poema no mover-se do refrata-reflete. 

Foi-se então o tempo em que o poema era flor. Delicado. Fechado. Olhando para sua maquinaria e se enfeitando de balangandãs. Perfumado. Imaginação. Suspiro de iluminado na torre de marfim. Medido à régua. De passo regrado. Espartilhado. Povoado de donzelas. De palavras castas, virgens. Esse estágio há muito que se perdeu. O poema não é mais universo apartado. Deixou as alturas. Incorporou as dores do mundo sem se perder nelas. Incorporou as decisões do seu criador e fez-se denúncia. Gotejar perfurante. 

O universo próprio que se cria do mundo faz o poema movimento. Perdeu-se também, logo, o estágio de paralisia. Poema travelling. Há nisso tudo, ainda, o poema antropófago. Alimentando-se da maquinaria dos balangandãs e fazendo-se maquinaria simples. Absorvendo o eco dos antepassados e fazendo-se novo eco. Não muitas vezes (constantemente) invadido por outras tessituras verbivocovisuais. Nascendo, ora do ponto morto, da materialidade esvaziada (quase) de poesia. Ora fazendo-se por metástase: de uma palavra princípio do mundo, um novelo infinito. De tons destoantes. Estonteante. De toadas. 

Mas (alerta) nem tudo é matéria de poema. Poetas de brinquedo quebram-se. Não resistem à pancada firme da palavra. Palavra pedra. Objeto de duas faces. As duas cortantes. O trabalho com a palavra é, pois, coisa de gente séria. Não há aqui espaço para os aluados, os tomados de inspiração. O poema é espaço de labuta. Constante. Exige do poeta a persistência, a audácia, o suor, o êxtase, o sangue. 

Nesse estágio novo do poema, vejam bem, foi que encontrei com uma poeta potiguar de produção significativa. E digo o porquê. Porque tem na palavra a seriedade. E consegue, como poucos, reinstalar esses organismos, nem sempre em atmosferas aconchegantes, mas suficientemente capazes de fundir-se em universos próprios cuja emoção (do eu que canta) e a razão (do eu que fabrica o canto) mantém-se em equilíbrio. Cada obra dela é como um andar por sobre uma cerca de farpados. Talvez essa seja a metáfora mais concreta para entender o desafio de, primeiro, entender a sua construção poética e, segundo, ler seus poemas. Do modernismo, ela não herda a metástase. Herda a concisão. Mamediana, como parece caminhar todos os grandes poetas que vem depois de Zila e faz da poeta uma fonte. Por conseguinte ela incorpora-se no rol cabralino; não somente pela seriedade com a palavra, mas pelo zelo com que remonta e constrói seus universos. 

A concisão dessa poeta nasce no nome pelo qual se designa. Como o nome daquela portuguesa, poeta no registro, a poeta potiguar Diva Cunha – é este o nome e é dela a obra, ambos, nome e obra homenageados nessa edição do caderno-revista – reúne no primeiro nome a dubiedade da palavra poética. Faz-se diva, de divino (?), de deusa a remoldurar universos. Diva não usa apenas do trabalho físico das mãos para compor. Sua poética é fabricada com os laivos do corpo e daí a palavra em Diva é também corporeidade. E o poema sistema. Logo o universo que ela remoldura é muito particular. E tão próprio que parece inútil procurar correntes em que filiar a escritora. Particular, mas plural. Se o corpo todo tateia a moldura do poema, os temas sobre os quais se sustentam são diversificados. Como deve ser o poema nesse novo cenário da palavra. 

A palavra de Diva é ousada. Desvirgina formas femininas. É cúmplice com aquilo que diz. Coloca a tessitura do desejo na fenda da palavra. E tudo se ilumina no gozo louco, hemorrágico. Entendem os dois limites que a palavra da poeta alcança? É a concisão que se perde no despejar de sentidos. A palavra em Diva parece está sempre grávida. Cheia por todos os lados. E de uma elegância única. 


Pedro Fernandes 
editor

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"O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face"
Mário Quintana

O mundo contemporâneo tem passado por movimentos diversos que encareceram o modo de existir dos sujeitos. Tanto é verdade que o fantasma encarnado na palavra “crise” tem sido o que hoje a tudo povoa. A consolidação das primeiras marcas desse fenômeno de crise, surgido pela soma de uma série de episódios, se dá, sobretudo, por aqueles elementos desencadeados da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Sem dúvidas, as transformações que este episódio, em particular, trouxe ao mundo não se resume apenas à modificação das linhas espaciais do continente físico europeu e as subjetivas dos indivíduos (dos seus modos de agir e ser), mas, feito rastilho de pólvora, se alastra e contamina o mundo todo e todos os setores; no terreno da arte não foi diferente: também as transformações se fizeram marcantes. Lembremo-nos dos movimentos da chamada era moderna que solavancaram esse território introduzindo novas temáticas, novas formas de uso da arte e novos modos e usos da linguagem.

É nesse contexto de modernidade que o ano de 1927 será, como um marco, significativo para a cidade do Natal. Pela época o eixo Rio-São Paulo lia Primeiro caderno do aluno de poesia de Oswald de Andrade, de Oswald de Andrade, ou Clã do jabuti, de Mário de Andrade, dois dos principais precursores do movimento modernista no País e duas obras símbolo dessa nova maneira de fazer e entender arte literária. O motivo de tal importância desse ano é que por aqui, também como no Centro-Sul, se assistia a publicação de um livro inusitado, tanto na forma (86 páginas, 15X21, em forma de caderno de desenho e impresso em papel barato tipo de jornal) quanto no conteúdo (portando singelos quarenta poemas). E ainda vinha com um título inusitado, Livro de poemas de Jorge Fernandes. Tudo isso, aos olhos do nosso provincianismo causou, certamente, estranhamento e, por que não, celeuma no meio artístico, ainda, de certo modo, encantado com os versos primaveris exalando o perfume da rima perfeita.

A poesia de Jorge Fernandes inaugura por cá aquilo que já se operava com grande veemência pelo Sudeste. De modo que é uma poesia significativa porque rompe com a estética perfeita e bem desenhada do parnasianismo e vem apresentar que o exercício poético é mais do que “escrever versos metrificados/ contadinho nos dedos”, mas uma labuta constante que se apropria da matéria do próprio cotidiano e da língua corriqueira para refundar novas maneiras e usos da linguagem; o entendimento de que no poema se fundam novos territórios e novas dimensões do pensar e do existir; o poeta cria para si um mundo à parte (uma máscara, para uso dos versos de Mário Quintana) que lhe outorga fins mais puro e mais verdadeiro do que a própria realidade. Em Jorge Fernandes são elementos materiais da modernidade – as máquinas das fábricas, os automóveis, a velocidade, a imagem, a visualidade sonora, e os aviões, sobretudo (está aí o motivo da capa desta edição).

Além de toda essa importância para o cenário da Literatura no Estado, e esse será outro motivo pelo qual sai esta edição em homenagem ao poeta, ano passado foi publicada uma belíssima edição reunindo toda a produção de Jorge Fernandes; trata-se do livro Jorge Fernandes – o viajante do tempo modernista, organizado, em mais de trinta anos de pesquisa, pela professora Maria Lúcia de Amorim Garcia. Tal empreitada da professora reinaugura o olhar para a obra-prima de Jorge Fernandes e apresenta-nos outras faces do poeta e do fazer-se poeta. Logo, o nome de Jorge Fernandes constitui, peça fundamental a que esse caderno registra em homenagear na sua segunda edição: um poeta dono de um espírito moderno, que redescobre o poder da palavra; um poeta para uma era ainda mais sofisticadamente moderna e novamente ressignificado na corrente literária do Rio Grande do Norte. 


Pedro Fernandes
editor

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"Um galo sozinho não tece a manhã: ele precisará sempre de outros galos"  
João Cabral de Melo Neto 


“Um galo sozinho não tece a manhã” – eis o elemento impulsionador da ideia para confecção deste material. 

Na nota de agradecimento às contribuições recebidas, o caderno-revista eletrônico que antes pensava em juntar em si apenas poemas e poetas, expande-se para a ideia de recepção de textos de outros gêneros. E agora, na recepção do 7faces, o leitor haverá de notar que a ideia novamente se vê modificada. E, parece que, enfim, consegui encontrar a modelagem do que realmente pretendia com esse material. 

“Ele precisará sempre de outros galos” – eis o interesse/pretensão minha com esse veículo. Não surge ele para transgredir nada e nem com ambições maiores do que a de congregar em torno de um mesmo espírito, o da poesia, faces de todo mundo. Eis o princípio de quando lançada na rede que dizia tratar-se 7faces da gênese de uma rede poetas que ambicionava reunir as vozes de poetas de todas as tendências, raças, cores, nacionalidades, temáticas, do que pudesse caber nas infinitas páginas da Web. Logo, mesmo a ideia tendo se modificado ao longo de sua gênese e com a possibilidade de lançamento de um caderno-revista eletrônico, creio que esse propósito do seu princípio ainda prevalece. 

Só tenho a agradecer, evidentemente, a todos os que contribuíram com esta edição, cujos nomes já foram citados; é verdade que, sem os contributos, ela não haveria. Ou fazendo jus à epígrafe cabralina que em sua lâmina vaza essa ideia – de que um galo sozinho não tece a manhã – foram eles, os que contribuíram, galos-poetas, que me fizeram de uma forma ou de outra pensar e re-pensar diversas vezes num formato para o tecido desse veículo. 

O número que agora sai é dedicado a poeta potiguar Zila Mamede (1928-1985). Se fosse ser publicado no tempo oportuno estaríamos pelo cinquentenário de O arado – obra singular que vem trazer aos ventos literários do Estado um estágio outro do fazer poético, já demonstrado quando do surgimento das obras anteriores da poeta; cito, para ser mais específico, Rosa de pedra e Salinas. 

A ideia dessa edição já estava pronta e, mesmo fora do tom, devido a não anuência de uma data comemorativa prefixada no calendário, permanentemente pronta sai, porque nunca se é data fixa homenagear aqueles nomes que de maneira singular contribuem para uma percepção outra de nós mesmos e do mundo onde nos inserimos. A escolha pelo nome de Zila, deu-se, antes da celebração de uma data, mas a celebração de um nome – que alia-se com o material agora publicado. 

A escolha por uma mídia digital é simples. Além dos custos serem quase apenas o do tempo do editor, também é o meio eleito por excelência ao grande público, dando a liberdade de o leitor consumir o produto da maneira que achar conveniente: na tela do computador ou impresso, por completo o texto ou por pedaços. 

Digo, para finalizar, que este trabalho que agora é publicado já é, desde então, um sucesso por congregar no seu ventre tão variadas faces, tão variadas vozes.  


Pedro Fernandes 
editor


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7faces. Edição especial. Março de 2016. "Allen Ginsberg: poemas"




(clique sobre a imagem para ampliar)

Organização e tradução
Cesar Kiraly

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas
118

Formato
edição eletrônica

Descrição

“pra quê mais ginsberg? pra quem mais ginsberg? ora, pra todos. pros poetas, é claro, que já estão lá atrás do sumo que mais importa nessa clareira da linguagem; mas é pra todos, sobretudo para os piores adictos” (Guilherme Gontijo Flores – prefácio a Allen Ginsberg: poemas)

Em agosto de 2014, foi publicada uma edição do Caderno-revista 7faces em homenagem a Allen Ginsberg, um dos nomes que melhor representam a chamada Beat Generation, movimento que, da parceria entre o poeta e Jack Kerouac, William Burroughs e muitos outros, ficou conhecido por introduzir na cena literária e cultural estadunidense uma série de rupturas – desde a linguagem às formas de rebelar-se contra o status quo social capitalista.

Nesse ínterim, as consequências impactantes que obras como Howl and other poems causaram entre os leitores de seu tempo somam-se às da formação de outros lugares ideológicos e de reivindicação político-social com temas, muitas vezes, bem à frente de seu tempo. É costume dizer que à Beat Generation – entre outros movimentos estético-culturais – devemos grande parte da chama que ainda resta acesa entre nós do chamado espírito rebelde, calcado no apagamento das dicotomias tão alimentadas pelo Ocidente.

Allen Ginsberg: poemas é uma antologia organizada por Cesar Kiraly cuja importância se exibe desde a base de criação de um número do Caderno-revista 7faces sobre a obra poética do estadunidense. Ela expressa algumas das peças que assinalam o rico trabalho de Ginsberg no campo da poesia e é uma amostra significativa para algumas dessas novas apostas encetadas pelos da sua geração: a liberdade criativa, a irreverência, a ironia, a relação direta entre o poético com as vivências, a exposição plena do corpo e das sexualidades subjugadas pelo status quo, a fuga do lugar-comum do bom-mocismo da sociedade, o revés do espírito hipócrita, a quebra das polarizações extremas num ambiente político marcado por um e outro grupo somente, a abertura de perspectivas outras sobre a relação com aspectos concernentes a existência – a relação com o outro, o amor, a morte etc. –, a saída definitiva de um universo de abstração formal para cantar a existência em seu pleno vigor, enfim, há aí uma pequena dose de tudo isso. Um mosaico, portanto, multifacetado de um poeta, de sua obra e do seu tempo. Ou uma porta de entrada no mundo-Ginsberg.

As traduções são também de Cesar Kiraly, quem recolheu poemas desde o mais famoso livro de Allen Ginsberg, Howl, a outros títulos, como Kaddish, Reality Sandwiches, The Fall of America e Mind Breaths. É, portanto, outro ponto de um projeto cujas primeiras peças deu forma e foram apresentadas na edição 9 do Caderno-revista 7faces e ampliou-se com a leitura pública realizada no Rio de Janeiro no mesmo ano de 2014. Durante pelo menos dois anos o tradutor andou burilando esses versos enfeixados pela apresentação de Guilherme Gontijo Flores e a construção imagética de Helton Solto, quem projetou o conjunto de ilustrações que integram a presente edição. Um rito à altura do que significa a obra literária de Ginsberg. 


7faces. Ano VI, 12 edição, ago.-dez. 2015




(Clique sobre a imagem para ampliar) 

Organização
Pedro Fernandes de Oliveira Neto
Cesar Kiraly

Capa
Macha Mélaine

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas

236

Formato
edição eletrônica

Autores desta edição
Matheus José Mineiro, Ana Maria Rodrigues Oliveira, Valdeck Almeida de Jesus, Waleska Martins, Bruno Baker, Rafaela Nogueira, Léo Br, Guilherme Dearo, Luiz Walter Furtado, Jorge de Freitas, Leonardo Chioda, Yasser Jamil Fayad, João Grando, Ricardo Escudeiro, Maria Azenha, Carole B., Lucas Grosso, Ludmila Barbosa, Cesar Carvalho, Marcos Mariani Casadore, Daniel Machi, Andreï Ribas  

Autores convidados
Luisa Destri, Mariana Payno, Luiza Helena Novaes


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